Entre suas aspas


É mais uma conversa. A última. Você “não sabe como começar” e eu não sei como terminar. Entre edredons, afagos, lágrimas, passados, covardias. São duas forças contrárias aqui dentro. Uma me pede pra ficar mais, te olhar mais porque sabe que vai ser a última vez. Outra implora pra que eu vá embora logo. Porque sabe que cada segundo soma uma lembrança.

E você diz que não sabe “como alguém do meu tamanho te faz sentir tão pequeno”. Ah, se eu conseguisse explicar como é difícil tentar ser gente grande quando você chora, quando você ri, quando você dorme. Como é difícil ser adulta se o mundo com você vira um livro de colorir. Como é difícil pensar em qualquer dor quando você sorri. Você não se sente pequeno, não. Eu é que não me permito mais ser criança.

Se “você prometeu tantas vezes pra você mesmo que não iríamos nos aproximar de novo”, porque, então, você chora? Só tranco uma porta, uma possibilidade que você nunca teve coragem de reabrir. Jogo a chave longe. Você diz que “o que mais dói é que tu duvides da minha fidelidade”. E o que mais me dói é que não tenhas nenhuma forma de me convencer do contrário. Dores por dores.

Não se preocupe. Você não tem do que “se arrepender”. E se tiver, arrependimento não mata. O que mata é essa dor que existe sem o menor sentido e que no fundo é só sentida e não se escreve.

Dentro das mesmas aspas, você disse que “me ama, mas é covarde”. E foi aí, exatamente aí, que eu desacreditei cada uma das suas frases. Essas duas verdades não cabem em dois pares de aspas, nem em um par de pessoas. E foi por isso, pela mentira, que se acabaram as aspas e agora tudo é silêncio. Sem edredons, afagos, lágrimas. Sem aspas.

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