Faltam dois dias pros cinco dias


Na sexta-feira, pela primeira vez desde que o mundo é mundo e o iPhone mudou a minha vida pra pior (no melhor sentido), vou desligar o celular por dias. Cinco, mais precisamente.

Quando agendei a viagem parecia que faltava uma vida e meia. Mas os meses foram se atropelando e, um a um, os meus planos de “deixar a vida impecavelmente organizada e o caos levemente habitável e até agradável talvez” foram caindo um a um. No momento meu sonho é zerar uma checklist que parece brincadeira de mau gosto: eu risco um item, ela cresce em dois. Eu vou chegar lá.

Não sei bem como lidar com isso de ausência. Tenho medo de perceberem que sou desnecessária. De me perceber um detalhe insignificante. Não tenho dúvidas de que quando eu chegar dos meus cinco dias de férias minha mesa estará lá, a cadeira também. Nada terá ruído e os meus colegas vão acumular apenas algumas experiências pra me contar. Mas o sentimento deve ser o mesmo que os pais sentem no primeiro dia de creche: tem um milhão de professores, mas sempre pode acontecer alguma coisa.

Pode não, vai. Claro que vai. O mundo não gira na velocidade que eu quero – ou eu teria, em dois dias, o cenário perfeito para a impossibilidade do caos. E eu preciso aprender, mesmo que na marra, que está tudo bem. Tudo bem algo não sair como eu faria. Tanta coisa sai. Preciso aprender a respirar melhor.

O sinal da bateria do meu celular está no fim e eu já estou desesperada. Como vai ser quando ele simplesmente não existir? Zero sinal. Zero wi-fi. Zero 3G.

Vou ser uma pessoa melhor, daquelas que respira o ar fundo. Que toma uma taça de vinho numa tarde de segunda sem sentir culpa. Que fica cinco dias sem falar de trabalho – como é possível, meu Deus? – e tudo bem. Quero dar bafão e deitar na neve pra ver se minha cabeça esfria um pouco. Quero ser melhor. Vou ser melhor.

Mas como eu continuo sendo a mesma pessoa de sempre, dos meus cinco dias de celular desligado dois são sábado e domingo. Um é feriado na minha cidade. Mas o que vale é a intenção.

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