Mudar de opinião: um direito, um dever, um orgulho


Eu odiava figo. Banana, então, não podia nem sentir o cheiro. Achava que feministas eram radicais demais (beiravam o exagero). Não conseguia imaginar uma refeição sem carne. Repetia aos quatro ventos que videogame era coisa besta, perda completa e absoluta de tempo. Cotas? Um absurdo. Brigamos? É pra sempre. Comprar um apartamento? Maior sonho da minha vida.

E aí, um dia, mudou tudo. Percebi que eu estava errada. Aos murros, pontapés, informações e aquelas coisas que a vida faz com a gente. Hoje sou feliz comendo figo e banana, sendo feminista, tentando ser vegetariana, despressurizando com os jogos mais legais do videogame, defendendo as cotas, retomando velhas amizades e morando de aluguel. Vida louca, né?

Tempos atrás estava na moda procurar tweets antigos de celebridades para criticar. Tudo bem que racista e homofóbica nunca fui, mas fiquei pensando que poderia ser comigo. E que atire a primeira pedra quem passaria imune a um raio-x digital.

Nunca antes nossas opiniões estiveram registradas em bytes. Os cadernos de perguntas (só eu sou dessa época?) sumiam com o tempo, as palavras eram contraditas (“eu nunca disse isso, juro!”) e ficava o dito pelo não dito. Mudar de opinião era vergonhoso para os poucos que faziam parte da galera. Uma festinha quase íntima em que você era zoado por cinco minutos e depois passava.

Agora não. Nessa vida onde todos somos celebridades e voyeurs da vida alheia, vivemos na época da patrulha. Todo mundo opina sobre tudo, logo todos estão aptos às retaliações e, talvez pior que isso, a atirar todas as pedras (e emojis, memes, reactions) a quem muda de opinião.

O mundo está se tornando um lugar chato, onde ficar em cima do muro (aquele lugar maravilhoso onde se enxerga os dois lados) é um problema, posicionar-se sem conhecimento de causa é outro e mudar de opinião, então, uma verdadeira catástrofe.

De todos esses sinais dos novos tempos, o que mais me incomoda é um julgamento sobre a metamorfose do outro. Mudar é humano, vital, essencial e lindo. E se pararmos de ver nisso um problema, talvez possamos usar as celebridades que mudam de opinião como exemplo a ser seguido. Afinal de contas, manter a mesma visão de mundo por uma vida inteira, além de chato, pode fazer de você alguém realmente amargo. Eu adicionei figo e minha vida ficou mais doce.

 

Outros textos

One Reply to “Mudar de opinião: um direito, um dever, um orgulho”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *