Mulher com eme maiúsculo


Você trabalha muito (demais, até!). Perde o sono por conta do processo que não acabou ou o job que não entregou. Aí acorda uma hora mais cedo porque ontem teve evento e não deu pra lavar a roupa e deixar a casa habitável. Vai tomar café da manhã com uma amiga parecendo um zumbi, mas antes disso ainda fica 10 minutos na frente do espelho brincando de Picasso com as bases pra tentar esconder a olheira. E isso é o mais perto que consegue chegar de qualquer exposição que sonha em ver.

Almoça um sanduba porque ainda precisa pagar as contas, ir no mercado e voltar correndo porque tem reunião. Sai do escritório atucanada porque quer assistir o episódio da semana da série ou ler mais um capítulo do livro. Dorme na metade de um e de outro. Sai do sofá com raiva, dorme mal e no outro dia começa tudo de novo.

Seria bonito se fosse ficção, ainda mais bonito se fosse exceção. Mas é sempre assim, todo dia. E se o “todo dia ela faz tudo sempre igual” do vinil empoeirado do Chico (que você nunca mais ouviu) é poético, essa poesia não tem rima, não ter verso e só tem uma consequência: você sentindo que o dia dos outros tem mais horas do que o seu. Achando que você “não dá conta”.

Não sei se foi a mídia (sempre ela), a pressão social (sempre ela!) ou só a nossa própria cabeça. Mas alguém um dia nos disse que as mulheres de verdade, aquelas com eme maiúsculo, capa de revista e corpo sarado tem tempo pra tudo.

As redes sociais delas jogam na sua o tempo inteiro como você é fracassada, fraquinha, mesquinha, mixa. Isso só se você acreditar em contos de fadas, Papai Noel e que as fotos no Instagram não tem filtros.

Porque a vida real não é como nas revistas e você precisa aprender a relaxar. Faz tempo que falta tempo. A gente só não conta pra ninguém. Não é manchete nem foto mais comentada a pilha de louça pra lavar, a janta sem carne porque você esqueceu de comprar, o desespero quando a menstruação está pra chegar mas não tem absorvente ou o livro fechado porque você só quer ver novela e relaxar. Não dá like, não dá moral. Mas é assim com todas nós. Ninguém é pior do que ninguém por isso.

E daí se a camiseta está meio amassada porque não deu tempo de passar? E daí que o blush ficou um pouco mais marcado de um lado? E daí que todo mundo sabe a letra da música do momento e você não? Você é uma mulher com eme maiúsculo. Um ser humano lindo, que não controla o tempo mas que pode controlar sua insegurança.

E a vida é bonita mesmo que não tenha dado tempo de escrever aquele e-mail pra amiga que está longe, de comprar as flores com cabos longos, de ter um jogo de copos que não seja uma coleção de diversas marcas de requeijão. Você não precisa ser antenada em todas as formas de arte, nem ter opinião formada sobre tudo. Se o seu inglês não for fluente, tudo bem. Tudo bem também se você matou academia para se jogar no brigadeiro. Você não é perfeita e relógio não obedece os seus desejos.

Mas uma coisa é certa: não há tempo para ser infeliz e acreditar no Instagram, no Papai Noel e no conto de fadas. A nossa vida pode até não ser perfeita, mas a sensação de viver de verdade é a mais completa realização.

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