Ney não se despe, deixa todos na plateia nus


As pessoas podem ter qualquer tipo de reação à Ney Matogrosso. A única impossível é passar ileso. Desde os Secos & Molhados. Desde o disco cantando Cartola. Desde Divino Maravilhoso. Desde sempre, nunca indiferente. Superlativos, porque a personalidade merece. Mas descobri qual é o segredo, o mistério, a mágica que ele exerce sobre nós. Enquanto troca de figurino em frente à plateia lotada e emocionada que o assistia, Ney cria uma armadura e despe completamente quem o assiste.

Foi essa a sensação que presenciei na noite da última terça-feira (4), quando assisti ao show Atento aos Sinais pela primeira vez, em Florianópolis (SC). Entre gritos e sussurros, o olhar penetrante de um dos cantores mais transgressores – e por isso revolucionários – da música brasileira invadia cada uma das centenas de pessoas que assistia, catatônica, da plateia. A vergonha ia para a gaveta.

Minha vista do show Atento aos Sinais, do Ney Matogrosso, que aconteceu na terça-feira (4), em Florianópolis (SC)

Minha vista do show Atento aos Sinais, do Ney Matogrosso, que aconteceu na terça-feira (4), em Florianópolis (SC)

E a cada rebolado, a sensação de que tudo é possível ia ganhando mais forma dentro dos ouvintes e força no centro do palco. Ney, aos 75, exibia o que mais admirável ele tem: ser a própria contradição. A técnica irretocável, os movimentos indígenas, o swing latino. Tudo nele parece uma intensa coisa só. E aí a gente se livra dos preconceitos, joga para longe os quadrados onde encaixamos cada referência da vida, como se fosse indivisível.

Aí ele canta A Ilusão da Casa quase num transe. Fala sobre o tempo ser o seu lugar. E as lágrimas escorrem do nosso rosto lavando a alma de tudo o que é finito. Porque se tem uma coisa que momentos como aqueles não são é passageiros.

Aos poucos, os gritos que seguem os primeiros rebolados vão se acalmando. Não porque não valham indizíveis vibrações de cordas vocais. Mas porque a bunda, a maquiagem e o paetê são o que menos importa. Ele está vestido. Nós é que estamos nus. Temos o peito à mostra, com as curvas e calos abertos para que todos vejam. E vemos o mundo de outro jeito, com outras cores, em outras sintonias quando um espetáculo como o Atento aos Sinais acontece não só no palco, mas dentro de nós.

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