Nunca vi a Portela ganhar, mas no meu peito ela sempre venceu


Eu estava numa feijoada com samba que, numa cidade como a minha, onde boa parte dos moradores desdenha carnaval como se não estivesse no Brasil, era quase como um oásis. Fazia calor e eu sambava até derreter brincando com os músicos que já faziam parte do meu ciclo de amigos mais queridos, quando o irmão de um deles me chamou. Dez minutos de papo depois, estávamos em um carro a caminho da casa dele que “queria muito me dar um presente e tinha que ser já”.

Um manto azul e branco que encheu meus olhos de lágrimas. O rio estava passando em minha vida e meu coração, ah, Paulinho, meu coração já tinha sido levado. Pouco tempo depois, descobri que na casa onde eu estava vivia uma das famílias mais lindas que eu já pude conhecer. Não lembro como, mas sei que quando dei por mim estavam Bruna, Tábata, Bárbara, Giani e Gilmar em volta de mim, tocando um samba enquanto eu sonhava ser porta-bandeiras no meio da sala. Nunca esqueci aqueles minutos.

A Portela é parte de mim sem que eu nunca tivesse sido parte dela. Descobri que carnaval não é um acontecimento quando ele mora na gente, que é a escola quem nos escolhe e não o contrário. Mesmo que ninguém da minha família goste de samba (não é DNA), mesmo que na minha cidade não tenha carnaval (não é convívio), mesmo que eu nunca tenha pisado em Madureira (não é proximidade).

Nunca vi a Portela passar, nunca fui à Sapucaí, sequer conheço o Rio de Janeiro. Nunca vi a Portela ser campeã (o último título da maior vencedora do carnaval foi em 1984, quando eu nem neste mundo estava), mas no meu coração ela é invencível.

Choro ouvindo a velha guarda. A água verte dos meus olhos como se fosse eu, porque no fundo é sobre mim. A cadência daqueles sambas equaliza com meu peito e cada batida do meu coração reforça o som da tabajara. A Portela arrepia minha pele porque não cabe em mim esse amor que é platônico e tão real.

Depois de dançar na sala da família samba e voltar para a feijoada portando o manto azul e branco, percebi que o carnaval nunca foi uma data. Sempre foi um sentimento. E pelas mãos da Portela ele me encontrou pra nunca mais largar.

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