O mar é para todos, o rio também


Li tardiamente Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva. Já nas primeiras linhas, quando ele descreve a sensação libertadora e incrível de estar à beira do rio com os amigos brincando naquele espaço, voltei a ser criança.

Nova Erechim, lá por 1993. Uma muvuca similar aos dias mais agitados da Praia Brava, com o cheiro de peixe de água doce borbulhando na panela de fritura, polenta sendo preparada no fogareiro e barracas de acampamento para todos os lados. Garotos brincando de Tarzan numa corda pendurada na árvore mais alta perto do Rio Burro Branco. Eles se jogavam de lá enquanto eu e os mais novos só podíamos ficar observando com bóias nos dois braços e uma admiração incrível por aqueles meninos-heróicos que ansiavam pelo impacto com a água mais uma vez.

As doces águas do Oeste e os campings que se formaram a sua volta até hoje abrigam centenas de famílias nos feriados, que se reúnem para estar perto do rio. Não tem apartamento, ar condicionado, cama box. Mas tem o rio, o mato, as crianças brincando com o pé na grama, o chimarrão dividido e o sabor da comida.

Mais de 20 anos depois, vivo no Vale do Itajaí. Uma região que só tem esse nome por conta do rio que corta as suas cidades. Repito, sempre e muito: vivo na cidade onde o rio faz curva e onde as pessoas ainda não perceberam a beleza e o potencial dessa gentileza da natureza.

As águas em Blumenau têm um simbolismo ímpar, claro. Foi graças a elas que nos tornamos paradeiro, não passagem. Temos aqui um rio que insiste em subir ou descer, subir e descer. O tamanho dos centímetros não se mede apenas pela régua. O número alivia ou desperta o pânico porque com ele estão cotas de destruição de um patrimônio imaterial: o passado e o futuro de uma centena de famílias que espera atenta e atônita o próximo boletim.

Nosso zique-zaque, dizem, também é culpa do rio: a enchente de chope, como o trocadilho diz, chegou depois da pior enchente das águas. Tudo porque Blumenau tem esse rio. E não fosse por ele não seríamos nem Blumenau, nem Oktoberfest, nem centímetro ou metro algum.

Blumenau tem um rio que faz curva. Na beira dela, uma prainha, hoje abandonada, já foi palco do maior de todos os nossos festivais de música, dos mais bonitos piqueniques e de reuniões culturais espontâneas onde “siuníam” todas as tribos. A curva que era observada do alto do Morro do Aipim e que – do ângulo contrário – viu o Frohsinn queimar.

O rio em Blumenau é plateia para tudo, mas só se torna protagonista quando é pra falar de medo ou tragédia. Há exceções, ainda bem. Mas são poucas atividades que criam laços afetivos entre as águas e a população. Para amarmos o rio que temos e cuidarmos dele, precisamos de opções de lazer às suas margens acessíveis a toda a população. As crianças de Blumenau só terão lembranças bonitas pra contar quando puderem vivenciá-las perto do rio que tem – e que é delas também.

O mar, sempre majestoso e infinito, tem mais de dois donos. Os rios Burro Branco e Itajaí-Açú mostram que algumas águas podem ser de todo mundo ou de ninguém. Depende dos olhos de quem vê – de quem vive – neles.

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