O mundo em estado auto: automático e solitário


A mensagem foi autocorrigida por uma máquina que não sabe o que eu quero escrever e muda o que eu sinto sem pedir licença. Liguei pro banco e o meu problema é simples, basta procurar um autoatendimento. Desisti de correr para a terapia porque a autoajuda da moda parece funcionar. Nem pedir ao estranho morador para fotografar a minha pose turista preciso mais: o timing da câmera me permite um autorretrato silencioso. “Você precisa melhorar a sua autogestão“, ouvi.

Minha autorreflexão me leva a questionar a minha face ranzinza. Não pode ser uma teoria conspiratória para deixar cada um de nós mais só. Mas é o que está fazendo.

Na escola, os professores tinham mania de autoavaliação. Calafrios tomavam conta de mim quando ouvia o papo de que “eu precisava refletir sobre o quanto tinha me esforçado por aquilo”. A nota seria usada na média. Eu precisava de alguns décimos. Mereço 9. Não chego a 7. Mereço 10, claro que mereço 10. Aprendi que quando a gente faz, tem controle. Só não me contaram que autocontrole também serve pra ser honesto com as suas potencialidades e defeitos.

Gosto de gente. O que me traz um sentimento de inadequação quase dolorido desse mundo cheio de processos automáticos e algoritmos que não permitem exceções. Aprendi que o ineditismo era um critério de noticiabilidade incrível. Hoje ele é um problema para atendentes que não tem tempo nem autonomia para resolver uma questão quando não é uma opção disponível no sistema.

Sinto falta de chegar ao banco com o peso do mundo nos ombros e encontrar alguém que me diga que vamos resolver. De poder dizer pro pessoal da operadora que já reiniciei o modem 12 vezes antes de ligar. De não me sentir incompetente por não entender a razão de fazer o que fiz e contar com o conhecimento dos amigos sobre mim.

O que é automático facilita a nossa vida. Tira de nós a responsabilidade, faz com que a gente não perca tempo com besteiras. Como tentar nos comunicarmos com um estrangeiro para que ele nos fotografe, conhecer uma história bonita na fila do banco, ter sugestões para que um texto como esse melhore porque alguém teve que corrigir. Essas coisas tolas que dão charme para a vida.

Se o atual estágio do mundo é o auto, tenho certeza que estamos cada vez mais longe do alfa. Pedir ajuda, informação, socorro ou qualquer outra coisa faz de nós humildes para perceber que não poderíamos estar sozinhos nesse planeta. Contar com os outros e conviver com eles é o que faz de nós seres humanos completos.

Temos que tomar cuidado para que a vida não entre no piloto automático. Porque aí você escolhe o fim da história. E evita todas as surpresas boas do caminho.

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