“Os piás só queriam jogar bola”


A terra do Oeste catarinense é vermelha. Um tom que era a marca registrada dos meninos da minha infância. Os pés, como carimbos, iam marcando o chão por onde passavam. Nem precisava contar: estavam jogando bola. Nasci há 46 quilômetros de Chapecó. Mas poderia ter nascido do outro lado do mundo. Em outra língua e com outras palavras, avós e defensores das crianças já repetiram muitas vezes “os piás só queriam jogar bola”.

Já passou na cabeça de todo menino, pelo menos uma vez na vida, que queria ser jogador de futebol. Ou locutor de partidas esportivas. Ou piloto de avião. Ou médico. As meninas também ganharam o direito de sonhar em ser Marta. Ser repórter. Ser comissária. As crianças têm o direito de sonhar.

Assim como os adultos, que sonham. Assim como meu avô sonhava em ver a Chapecoense brilhar, mesmo que a gente, com a indelicadeza que a infância permite, dissesse “vamos torcer para o Grêmio ou para o Inter, vô. Isso nunca vai acontecer”. Assim como certamente cada um dos jogadores sonhou em estar numa final internacional. Assim como o piloto imaginou voar. Assim como os narradores um dia sonharam em acompanhar um time que representaria o Brasil. Assim como qualquer um de nós, hoje, consegue imaginar onde queria estar amanhã.

Tem aqueles que não desistem. Que guardam a camisa da Chapecoense no armário como um manto. Que se mudam para uma cidade no Oeste de Santa Catarina para jogar num time desacreditado, confiando no seu potencial de ajudá-lo a crescer e viver com ele a glória. Que começam narrando um campeonato de bairro e se dedicam a essa partida como se fosse uma final de Copa do Mundo.

E aí, em dias como hoje, quando a vida parece frágil demais para qualquer grandiosidade, um sonho simplesmente se vai com a mesma inocência que veio. Como um sopro. Como um nada, mesmo que tenha sido o motivo de tudo.

Os piás só queriam jogar bola. E ninguém sabe como vai viver sem aquela terra vermelha carimbando o chão e trilhando o caminho para o sonho que acabou.

[Ao meu Oeste querido, o sentimento de boa filha que o coração deixou por lá. A certeza de que as pessoas são as mais incríveis que se pode ser. A energia positiva de quem sabe que o verdão é e sempre será campeão. Um abraço apertado.]

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