Santa Catarina: estado de graça


Minha mãe conta que, quando criança, uma das suas brincadeiras favoritas era correr com os animais que eram criados em casa. Na época, uma necessidade. As melhores lembranças são reservadas para as galinhas, responsáveis pelos ovos harmonizados sem gourmetização com a polenta de todos os dias. Meu tio, 40 anos depois, mantém a pecuária como atividade. A diferença é que a estrutura não envolve meia dúzia de crianças para correr atrás das aves, mas gigantescos aviários, geradores de energia e tecnologia de ponta.

A combinação elegante entre os hábitos do passado e a coragem de apostar e olhar para o futuro não é exclusividade da minha família. É só olhar em volta para perceber que esse espaço que fica entre tradição e inovação é característica hors concours do catarinense.

Os bailes dos Clubes de Caça e Tiro deram origem à Oktoberfest e a tantas outras festas não só de outubro, mas no ano todo. A necessidade de costurar para grandes famílias evoluiu para um estado com a segunda maior produção têxtil do país. O hábito de produzir cerveja em casa se transformou em um segmento em ebulição, que levou a um roteiro turístico único.

Mas, assim como minha mãe que não foi criada no Vale do Itajaí, as outras regiões do estado compartilham deste mesmo DNA. A madeira que era cortada por necessidade evoluiu para um mercado que emprega muito e ganha espaço através do design. O vinho que animava as tarantelas do nosso interior se transformou em garrafas premiadas internacionalmente. As olarias metamorfosearem em uma indústria de cerâmica forte como poucas.

Pode parecer natural. O que era feito evoluiu, começou a ser realizado de outra forma, depois inovamos, adaptamos e chegamos até aqui. Eis, como o gênio Caetano Veloso sempre reforça, a dor e a delícia de ser quem se é.

Quem olha de fora vê a riqueza que há num estado que é, ao mesmo tempo, referência de tradição e inovação. Percebe que a grande força do catarinense está em olhar com atenção o que já se fez, em aprender com o passado ao invés de descartá-lo por já ter sido vivido. E sabe que não se trata de falta de criatividade para o novo, mas de sabedoria para entender que inovar é sobre evoluir.

Nós estamos presos as nossas rotinas e muitas vezes sem a perspectiva que a distância dá. Não percebemos o valor que este estado e suas influências, muitas vezes erroneamente resumidas as europeias, construiu através de uma sabedoria tão simples: valorizar uma tradição não é apenas mantê-la, mas também fazer com que ela evolua para que seja perene.

Nós não confundimos tradição com estagnação. E deve ser por isso que, muito mais do que uma unidade da federação, o resto do país nos veja como um estado diferente. Em constante estado de graça.

Outros textos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *